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Aspirina

24.10.2009 | New York Times

Aspirina teve participação em gripe espanhola, diz estudo

O que levantou as suspeitas de Starko foi que altas doses do remédio

A epidemia de gripe de 1918 foi provavelmente a calamidade mais mortal da história da humanidade, matando mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Agora, parece que um pequeno número das mortes pode ter sido causado não pelo vírus, mas por um remédio usado em seu tratamento: a aspirina.

A Dra. Karen Starko, autora de um dos primeiros ensaios ligando o uso da aspirina à Síndrome de Reye, publicou um artigo sugerindo que overdoses do relativamente novo "medicamento milagroso" poderiam ter sido fatais.

O que levantou as suspeitas de Starko foi que altas doses de aspirina, quantidades consideradas inseguras hoje em dia, eram comumente utilizadas para tratar a doença. Além disso, os sintomas de overdose de aspirina poderiam ser difíceis de distinguir dos próprios sintomas da gripe --especialmente entre aqueles que morreram logo após ficarem doentes.

Algumas dúvidas foram levantadas ainda na mesma época. Pelo menos um patologista que trabalhava para o Serviço de Saúde Pública achou que os pulmões examinados durante as autópsias das primeiras mortes estavam pouco danificados para que o óbito fosse atribuído à pneumonia viral, e que as grandes quantidades de líquido sangrento e aquoso nos pulmões deveria ter alguma outra causa.

Starko reconheceu não ter relatórios de autópsia ou outros documentos capazes de provar a culpa da aspirina. "Aqueles lugares eram um caos", disse ela, "e não acho que haja registros de qualidade em lugar algum".

Porém, dos muitos fatores que podem ter influenciado os resultados de qualquer caso em particular, escreveu Starko, a overdose de aspirina se destaca por diversas razões, incluindo uma confluência de eventos históricos.

Em fevereiro de 1917, a Bayer perdeu sua patente americana sobre a aspirina, abrindo um lucrativo mercado farmacêutico a muitos fabricantes. A empresa contra-atacou com abundante publicidade, celebrando a pureza da marca exatamente quando a epidemia atingia seu auge.

As embalagens de aspirina eram produzidas sem avisos sobre intoxicação e poucas instruções de uso. No outono de 1918, enfrentando uma doença mortal alastrada sem cura conhecida, as autoridades do governo e a marinha dos EUA recomendaram a aspirina como tratamento sintomático, e os militares compraram grandes quantidades do medicamento.

O "Journal of the American Medical Association" sugeriu uma dose de mil miligramas a cada três horas, o equivalente a quase 25 comprimidos-padrão de 325 miligramas a cada 24 horas. Isso é aproximadamente o dobro do que hoje se considera uma dose segura.

O artigo de Starko, publicado na edição de 1º de novembro do Clinical Infectious Diseases, gerou algum interesse entre outros especialistas.

"Acho que o artigo é criativo e está fazendo boas perguntas", disse John M. Barry, autor de um livro sobre a gripe de 1918, chamado "The Great Influenza". "Mas não sabemos quantas pessoas realmente tomaram as doses de aspirina discutidas no artigo".

A farmacologia da aspirina é complexa e não foi totalmente compreendida até a década de 1960, entretanto a dosagem é crucial. Dobrar a dose dada em intervalos de seis horas pode causar um aumento de 400% na quantidade de remédio que permanece no corpo. Até mesmo doses diárias bastante baixas --de seis a nove pílulas padrão por dia durante vários dias-- podem levar a níveis perigosamente altos do medicamento no sangue de algumas pessoas.

Peter A. Chyka, professor de farmácia na Universidade do Tennessee, disse ter achado a teoria de Starko "intrigante". Pouco se sabia a respeito de dosagens seguras na época, disse ele, e os médicos simplesmente aumentavam a quantidade até verem sinais de intoxicação.

"No contexto do que sabemos hoje sobre aspirinas e produtos parecidos com ela, Starko fez uma tentativa interessante de reunir tudo isso", disse Chyka. "Há outras coisas além da gripe que podem complicar uma doença como essa".

Embora duvide que mais do que um pequeno número de mortes possa ser atribuído à overdose de aspirina, o Dr. David M. Morens, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, disse que o artigo era valioso por "fazer um esforço para examinar fatores ambientais ou hospedeiros que possam estar envolvidos". Segundo ele, "Não conseguimos explicar todas as mortes em jovens adultos com o vírus em si".

Starko estava hesitante em estimar quantas mortes a overdose de aspirina poderia ter causado, mas sugeriu que os arquivos militares eram um lugar para se procurar. "Estou esperando que outros venham em seguida", disse ela, "ao examinar registros disponíveis de tratamento".